Por Luis Fernando Ribeiro e Leandro Abrantes

Geralmente quando falamos sobre algo que nos remete às nossas origens, enchemos a boca para destilar o orgulho de nossa terra. Sempre foi assim quando escrevo a respeito de qualquer disco gravado no Brasil. Mas dessa vez o que chegou até mim foi um disco de uma banda da cidade onde passei parte da minha adolescência e onde se iniciou a minha formação musical. Não preciso dizer que foi absolutamente difícil manter a neutralidade para escutar e escrever sobre o primeiro álbum de estúdio dos catarinenses da Ignited de maneira imparcial e justa, então busquei o apoio de um grande amigo que cresceu na mesma região onde a banda foi formada e teve por lá suas próprias bandas por volta dos anos 2000. Leandro Abrantes (ex-Extricnina) me acompanhou nessa jornada e teceu alguns comentários pontuais muito bem colocados sobre esse promissor álbum da cena do metal nacional.

Formada em meados de 2017 na cidade de Balneário Camboriú, a Ignited, surgiu a partir da colaboração de Dalton Castro (Guitarra) e Maurício Velasco (Bateria) e teve sua formação consolidada com a entrada de Denis Lima (Vocais) e Sama Benedet (Baixo). Com esse time a banda entrou em estúdio para gravar seu debut. Para seu disco de estreia a banda contou com a produção, mixagem e masterização de Thiago Bianchi, ex-vocalista do Shaman e com Gustavo Sazes, que já trabalhou com nomes como Manowar, Arch Enemy e Morbid Angel, nas artes do disco.

Lançado em 2019, Steelbound soa pesado e agressivo, mas também melódico e de muito bom gosto. Para quem está familiarizado com a sonoridade das mais variadas vertentes do heavy metal, não achará contraditório dizer que o som da banda faz parte de uma “nova onda da velha escola do heavy metal”, mesclando as características que fizeram do estilo o que ele é hoje e adicionando alguns elementos mais modernos e pretensiosos do que o som mais tradicional de outrora.

É quase impossível para uma banda nos dias de hoje soar livre das influências e comparações com os mestres que moldaram os rumos da música pesada, sendo assim, nesse disco sentimos que a banda bebeu em fontes variadas, enriquecendo seu repertório, passando especialmente por Judas Priest, King Diamond, Shaman, Savatage e Iced Earth. O que eles souberam fazer muito bem, especialmente da metade do disco em diante, é alicerçar seu som nesses grandes nomes sem deixar isso confrontar a identidade da banda.

O álbum abre com “Ignition”, escolhida como primeira faixa de trabalho (o que lhe rendeu um single e um vídeo clipe) e que nos apresenta uma banda altamente competente. Trata-se de uma típica faixa de abertura, com uma pegada vibrante e peso do início ao fim, com um refrão que fica imediatamente na cabeça e um nível de composição e produção de bandas que já se consagraram praticando uma fórmula similar. Toda a receita básica para uma boa música de heavy metal está ali. Os riffs pesados e cavalgados de Dalton, a cozinha vigorosa e precisa de Sama e Maurício e o vocal de Denis, que apesar de começar muito lá em cima, atingindo notas à la Andre Matos ou Rob Halford, no decorrer do disco ganha personalidade e soa absolutamente interessante, especialmente quando vai com naturalidade de um extremo ao outro de sua extensão vocal. O refrão é o destaque da canção, onde todos os músicos se colocam lado a lado para mostrar o potencial e a competência da banda. Apesar de carregar bastante informação para uma música só, torna-se um bom cartão de visitas para o que se pode escutar em Steelbound.

“Pain” é mais cadenciada e encorpada e começa a desenhar aos poucos a identidade da banda, que se mostra bastante clara ao final da audição do disco (vale destacar que as comparações aqui feitas servem apenas como um termômetro para apresentar uma banda nova em meio a um cenário de inúmeras bandas renomadas). Aqui a interpretação de Denis, acompanhado de backings à la Megadeth (vide “Take No Prisioners”), faz toda a diferença, fazendo até mesmo parecer que é cantada por duas pessoas, uma em resposta a outra, tamanha a diversidade vocal apresentada. Os solos já se apresentam sem a urgência em mostrar serviço da anterior e soam mais naturais e bem elaborados.

A faixa que carrega o título do álbum tem uma pegada semelhante à anterior, transitando entre momentos mais cadenciados e outros mais acelerados com absoluta naturalidade. O destaque fica para a bateria bastante variada de Maurício Velasco que já entra cheia de efeitos e se desenvolve com muitas viradas e um trabalho excelente nos pedais duplos. O trabalho de guitarra Dalton também já começa a apresentar uma personalidade forte, com um excelente solo carregado de feeling.

Essa primeira parte do disco – apesar da qualidade incontestável – começa a mostrar, após a audição das faixas seguintes, uma das poucas coisas que me incomodaram em Steelbound: a disposição da ordem das faixas. Apesar de seguir uma linha muito similar de composição nas canções seguintes, da quarta música em diante temos uma banda totalmente renovada, dando a impressão que as três primeiras faixas foram compostas em um momento da trajetória da banda e as demais vieram muito depois, com muito mais maturidade, identidade e primor técnico. Essa impressão se confirma logo nos primeiros segundos da grandiosa “Living in the Dark”, com seus riffs encorpados e diabólicos, quase épicos (algo que o Abbath fez com maestria em Between Two Worlds, do seu projeto solo I), com uma interpretação quase falada e inspiradíssima (quase alcançando o Andre Matos no refrão), com uma bateria intrincada e precisa e com destaque especial para o baixo denso e rosnante de Sama Benedet, que até o momento se mostrava competente mas tímido por causa de seu volume na gravação.

“Call Me To Run” se torna rapidamente – em comum acordo – a favorita desses que vos escrevem. A banda se mostra mais a vontade, soando espontânea e com sua própria cara. Tudo aqui soa como Ignited. Os riffs e a cozinha convidam a bater cabeça (se você conseguir ouvir essa música sem fazer um air guitar, bass ou drums, você está no gênero musical errado) e o vocal se mostra mais dinâmico e competente do que nunca. A maneira como o baixo e a bateria se conversam e como a guitarra dá espaço durante o refrão, dão liberdade para Denis contar a história ao invés de apenas interpretar a letra. Por fim, a atmosfera criada para preparar o solo soa como a banda devolvendo a guitarra o espaço que ela deu ao resto da banda no restante da música, gerando uma expectativa que foi atendida em um solo que desfila classe e técnica e que não jorra informações, prendendo o ouvinte e entregando de volta a música para um novo refrão que vem ainda mais alto, fazendo a música ganhar cada vez mais corpo e intensidade. Em suma, uma música onde tudo está dosado na medida certa e sem pressa de acontecer e onde todo o time joga pelo coletivo. “Call Me To Run” é a canção que melhor representa a sonoridade da banda e a capacidade criativa e coletiva dos compositores.

“Times” é a inevitável balada do disco, mas não soa como algo que apenas está ali com o propósito de preencher o material. Com um pé no Iced Earth e outro no Circle II Circle e suas belas baladas, a banda apresenta uma canção coesa e bonita, com boa transição da parte mais leve e melódica para a mais pesada e densa e com um nível de composição de banda renomada. A música termina em fade out, dando uma linda sensação de infinitude para a faixa.

Em meio à tantas boas canções, “Ground Pounding” acaba passando um pouco despercebida, soando algo como o que o Metallica fez em seu disco mais recente. Alguns riffs flertam com um thrash mais moderno e cadenciado, mas no geral a faixa é um heavy bem tradicional com alguns momentos interessantes mas sem muito destaque.

“Shining Void” começa com uma atmosfera incrível à la “Lifting Shadows Off a Dream” do Dream Theater e uma belíssima interpretação de Denis Lima, lembrando a vibe do Shaman na época do Andre Matos, mas ainda assim com muita personalidade. A ponte para o refrão e o próprio refrão carregam as melhores interpretações do vocalista em todo o disco e uma letra de uma beleza poética sutil e poderosa. O solo, tal qual em “Call Me To Run”, passa por uma construção lenta e inteligente, soando harmonioso, frondoso e sombrio. Em alguns momentos ela vira quase uma balada, mas no geral é uma música bastante pesada e com um clima denso e soturno, o que faz o ouvinte tomar um susto quando “Roaring Gears” entra literalmente rugindo (com o perdão do trocadilho). Rosnante e agressiva, torna-se facilmente a mais pesada do disco e prontamente uma das melhores faixas. Aqui o baixo de Sama mostra toda sua força, formando uma parede sonora com a bateria intrincada e cheia de mudanças de andamento, dividindo espaço com os riffs apuradíssimos e permitindo que o vocal vá lá em cima sem soar cansativo em nenhum momento.

Fechando o disco e numa transição quase natural da faixa anterior (o que me lembrou a dobradinha “The Mirror” e “Lie” do Dream Theater no disco Awake), “Rotting” começa numa excelente virada, mantendo o clima mas não a velocidade da anterior. A linha de baixo aqui é novamente o destaque, numa música que caberia muito melhor lá no meio do disco, pois ela acaba e o ouvinte fica aguardando a próxima faixa. Se isso foi proposital para deixar o disco aberto para o próximo, ótimo, mas confesso que fiquei bastante surpreso com o final abrupto.

Steelbound pode ser encontrado nas principais plataformas de streaming e é um disco 8,5 de uma banda que com certeza passará do 9 nos próximos lançamentos e, assim como tantas outras bandas brasileiras, poderá levar o nome do nosso país mundo afora com um trabalho cheio de garra, competência e amor pelo heavy metal. O disco peca apenas na disposição das faixas, o que altera a percepção do álbum como um todo. Hoje em dia poucas pessoas consomem um disco do início ao fim, mas em geral essa é a intenção da banda e uma organização mais equilibrada das canções tornaria a experiência ainda mais interessante.

Numa analogia bastante cabível, poderíamos dizer que esse primeiro disco soa como um primeiro show. A banda entra no palco com garra e vontade de fazer um grande trabalho, mas ainda um pouco nervosa, comete alguns deslizes. Passado esse primeiro momento, os músicos começam a ganhar o público e se tornam mais confiantes. Tudo começa a soar mais natural e divertido, culminando em um final de show arrebatador, onde a banda deixa o público empolgado e com grandes expectativas pelo próximo show.

Que venha o próximo disco e vida longa à Ignited, mais uma excelente banda que surge em terras tupiniquins.

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