Nunca houve o “último suspiro da discothèque” e não importa se o Heavy Metal mudou minha vida. Sempre gostei de I Was Made for Lovin’ You, do álbum “Dynasty” (1979), um dos primeiros que tive do Kiss.”

Por Ricardo Batalha (*)

Quando entrevistei, certa vez, o vocalista Don Dokken, líder da banda norte-americana de Hard Rock Dokken, ele falou com orgulho de ter participado das ondas de protesto chamadas “Disco Sucks” ou “Death to Disco”, que os fãs de Rock organizaram nos Estados Unidos no final dos anos 1970. Ele vibrou falando sobre “o dia que a Disco morreu” quando, em 12 de julho de 1979, fãs de Rock lotaram o estádio de Baseball Comiskey Park, em Chicago, e atearam fogo em pilhas de álbuns da Disco Music. A baderna foi generalizada, saiu do controle e a polícia entrou em ação. Entretanto, aquele distúrbio teve sérios efeitos e a decadência da Disco era iminente. Até então, os seis primeiros colocados das paradas de sucesso vinham de astros da Discoteca. Meses depois, em setembro daquele ano, não havia nenhum artista daquele estilo no Top 10. Declararam o fim da Disco e a retomada do Rock. Bem, fim da Disco como o som da “moda” apenas. Queira ou não, ela vive até hoje.

Antes de o Heavy Metal mudar a minha vida eu era vidrado em Motown, R&B, Disco Music e no verdadeiro Funk. Tinha em casa quase todas as coletâneas das gravadoras K-Tel e Som Livre, incluindo os álbuns dos heróis da música negra da cultuada Motown. Gostava até de Andrea True Connection, banda da ex-atriz pornô norte-americana Andrea Marie Truden. O que sabia sobre o Rock’n’Roll me fora passado por minha mãe, que apreciava Elvis Presley, Billy Halley, Little Richards, The Platters, Paul Anka e alguns outros astros dos anos 1950. Eu sabia, em termos, o que era Rock. Mesmo assim, ouvia a trilha “Saturday Night Fever” quase todos os dias, ainda que nunca tivesse pensado em imitar as coreografias de Tony Manero, famoso personagem vivido por John Travolta no filme “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977). Sempre fui mais para o lado I Won’t Dance, título de uma das composições de Thomas Gabriel Fischer e que consta no álbum “Into The Pandemonium” (1987), do Celtic Frost.

Ouvia a trilha “Saturday Night Fever” quase todos os dias, ainda que nunca tivesse pensado em imitar as coreografias de Tony Manero, famoso personagem vivido por John Travolta no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”

Naquele final dos anos 70, o Brasil ainda vivia sob o regime da ditadura militar, o que não impedia os disc-jockeys de fazerem a festa. A Disco Music era uma febre em São Paulo, com discotecas espalhadas pela cidade inteira. Algumas bem conhecidas, como Hippopotamus, Papagaio Disco Club, Ta Matete, Banana Power e Soul Train Disco Club. Meu lema era “I Won’t Dance”, mas estava sempre antenado com o que rolava no momento e minha coleção de discos só aumentava. Dançando ou não, sempre tive aquele cheiro característico do disco de vinil incrustado em mim desde criança. Veio o Heavy Metal com o “Volume 4”, do Black Sabbath, e a fase da calça boca de sino se tornou nostalgia – como é até hoje.

Minha “segunda maternidade” foi a Woodstock Discos, do “professor” Walcir Chalas. Sendo assim, o mundo ganhou mais um rebelde chato, ávido por conhecer todas as bandas daquela linha musical chamada Heavy Metal. Desculpe, mas não fui iniciado pelos Beatles ou Stones. Eu fui direto ao ponto… do peso! Fiquei hipnotizado e aquilo começou a ser viciante. Queria conhecer tudo e aí passei a frequentar a Woodstock Discos semanalmente. Coitado do Walcir Chalas, que passava horas respondendo meus questionamentos sobre lançamentos, discos antigos e bandas novas. Entendo bem o conflito de gerações porque passei por isso e meus heróis são os que conheci na fase do descobrimento. Iron Maiden, Anvil, Raven, Angel Witch, Metallica, Slayer e tantas outras um dia foram novidade. Seja como for, nunca esqueci o suingue da Black Music e da Disco Music. Para mim, nunca houve o “último suspiro da discothèque” e não importa se o Heavy Metal mudou minha vida. Sempre gostei de I Was Made for Lovin’ You, do álbum “Dynasty” (1979), um dos primeiros que tive do Kiss. Nem queria saber se tinha ritmo dançante ou se o quarteto mascarado havia se vendido para conquistar outro tipo de público.

Veio o Heavy Metal com o “Volume 4″, do Black Sabbath, e a fase da calça boca de sino se tornou nostalgia – como é até hoje”

O Kiss ajudou a ampliar a fortuna de uma das principais gravadoras da era Disco, a Casablanca Records. O envolvimento era grande. Lembra do hit Instant Replay? Pois foi o guitarrista Vinnie Vincent, que veio ao Brasil com a banda e depois gravou o álbum “Lick It Up” (1983), quem gravou este hit da Disco Music com Dan Hartman. Ele aparece até no videoclipe! O saudoso baterista Eric Carr, que também veio ao Brasil em 1983 com aquela bateria em forma de tanque de guerra, atendia por Paul Caravello quando era músico de estúdio. Gravou, entre outros trabalhos, o álbum de uma banda Disco chamada Lightning, lançado em 1979 pela mesma Casablanca. Como consigo lembrar de tudo da época da Disco Music eu não sei, mas confesso que demorei para entender o que foram aquelas ondas de protesto que Don Dokken falou com tanto orgulho. Porém, uma coisa é certa: eu posso balançar a cabeça, fazer ‘air guitar’ e detonar no ‘air drums’. Mas “eu não danço”.

(*) Ricardo Batalha é redator-chefe da revista Roadie Crew (roadiecrew.com) e diretor da ASE Assessoria e Consultoria (asepress.com.br).

Visualizações recomendadas:

Disco Sucks (Disco Demolition Night @ Comiskey Park em Chicago 1979):

I Won’t Dance (Celtic Frost):

Dan Hartman – Instant Replay (c/ Vinnie Vincent):

Lightning – Disco Symphony (c/ Eric Carr):

I Was Made For Lovin’ You (Kiss):

Woodstock – Mais Que Uma Loja:

(*) Ricardo Batalha é redator-chefe da revista Roadie Crew e diretor da ASE Assessoria e Consultoria.

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