Eu diria para ela seguir o seu coração, não deixe que ninguém te diga algo diferente do que você sente. Se você sente que quer tocar alguma coisa, então toque.”

Lita Ford: Alô!

Wikimetal (Nando Machado): Oi, aqui é o Nando, do Brasil, como você está, Lita?

LF: Bem. É um prazer.

W (NM): Então, Lita, quando você começou a sua carreira, não haviam muitas garotas tocando guitarra naquela época. Como foi isso para você? E quem te inspirou a se tornar uma guitarrista?

LF: Minhas inspirações foram o Ritchie Blackmore, do Deep Purple, o Johnny Winter… Eu gostava do Jimmy Hendrix, do Black Sabbath, sabe, muitos dos guitarristas de heavy metal.

W (NM): E nenhuma garota te inspirou?

LF: Não, bem, não haviam muitas garotas, não havia nenhuma. Eu gostava da Janis Joplin como cantora… Eu gostava do Mick Jagger como cantor, mas não havia nenhuma guitarrista mulher.

W (NM): Então, quando você tocou no The Runways, você fazia basicamente background vocals e tocava guitarra. Então como foi o processo de aprender a cantar como vocalista principal e tocar guitarra ao mesmo tempo? Teve alguém que te ajudou na época?

LF: Não, ninguém me ajudou, eu aprendi sozinha. Eu fui a um grande galpão, onde eu aluguei uma guitarra… Perdão, eu aluguei um PA system, não uma guitarra, eu tinha minhas próprias guitarras. Eu aluguei um PA system e eu me ensinei a cantar e tocar ao mesmo tempo, porque eu queria formar uma banda, e eu pensei em encontrar um cantor principal para ser o cantor da minha banda, mas eu não consegui encontrar ninguém. Eu tive dificuldade em encontrar garotas cantoras, então, sabe, “eu não consigo encontrar ninguém para fazer isso, então eu mesma faço.” E eu aluguei um galpão e me ensinei a cantar e tocar ao mesmo tempo. E não foi fácil, foi difícil.

W (NM): Eu imagino, e nós estamos felizes que você tomou essa decisão.

LF: Obrigada. Sabe, é por isso que o Jimmy Hendrix foi uma inspiração, e é por isso que o Johnny Winter foi uma inspiração, porque eles eram cantores e eles eram guitarristas ao mesmo tempo. Eu sempre olhei para eles e pensei “Nossa, como eles fazem isso?”. Sabe, é como fazer duas multitarefas ao mesmo tempo.

W (NM): Nós temos uma pergunta clássica no nosso show, mudando de assunto, Lita, que nós fazemos a todas as pessoas que nós entrevistamos: imagine que você está dirigindo o seu carro, ouvindo rádio em uma estação de rock, ou ouvindo o seu ipod no shuffle, e uma música começa a tocar que faz você perder o controle completamente. Que música seria essa, para que nós possamos ouvi-la no nosso programa agora?

LF: Ah… Ah, meu Deus…

W (NM): Todo mundo tem essa mesma reação quando nós fazemos essa pergunta.

LF: Ah… “Balls to the Wall”, do Accept. Vocês tem essa?

W (NM): Sim, é claro, da banda alemã lendária Accept, “Balls to the Wall”!

LF: É isso aí! “You’ll get your balls to the wall, man!”

W (NM): Isso é só uma curiosidade, no vídeo do “Out For Blood”, nós podemos ver que você está com um hematoma no seu braço esquerdo. Como isso aconteceu?

LF: Sim, eu percebi isso no vídeo, e eu não consegui acreditar que eles não cobriram isso, onde eles estavam com a cabeça? Eu costumava jogar raquetebol… Vocês sabem o que é raquetebol? Vocês tem raquetebol no Brasil?

W (NM): Sim, nós temos.

LF: Eu costumava jogar raquetebol, e nós jogávamos muito, e parace, para mim, que eu fui atingida pela bola, porque é uma marca redonda no meu braço.

W (NM): Que engraçado.

LF: É a única coisa que eu consegui pensar… Eu costumava ser atingida o tempo todo, sabe, eu ficava cheia de hematomas.

W (NM): Você tem muitas grandes músicas na sua carreiras, e também parcerias incríveis. Você poderia compartilhar algumas lembranças da criação dessas grandes músicas, como “Close My Eyes Forever”, “Can’t Catch Me” e “Falling In And Out of Love”?

LF: Meu Deus, sim… Bom… “Close My Eyes Forever” foi uma música que eu escrevi com o Ozzy, e foi engraçado quando nós escrevemos, porque não foi uma sessão, na verdade, não foi uma coisa que nós havíamos planejado fazer. Eles tinham – o Ozzy e a Sharon vieram para o estúdio enquanto eu estava gravando, e eu havia acabado de comprar uma casa nova, e eles me compraram uma cópia de um gorila de tamanho real – Coco, o gorila, do zoológico de San Diego, na Califórnia.

W (NM): Sério?

LF: Era do tamanho de um gorila de verdade. Era um bicho de pelúcia gigante… E o Ozzy e eu começamos a jogar sinuca, nós estávamos bebendo vinho, estávamos fazendo uma festinha, sabe, só eu o Ozzy. E nós começamos a escrever, começamos a tocar e cantar músicas do Black, e quando eu percebi, estava amanhecendo, e eu tinha que voltar para casa dirigindo, e eu estava bêbada, eu não podia dirigir, e eu tinha o Coco, o gorila… Eu tinha que voltar para casa, então eu amarrei o Coco, o gorila no banco da frente do meu carro, e aí o Ozzy queria que eu levasse ele para casa, e eu disse “Não, eu não posso dirigir, porque eu bebi muito vinho”. E eu acabei colocando o Ozzy em um taxi, e o taxi levou o Ozzy para casa. Daí eu entrei na minha caminhonete com o Coco, o gorila amarrado no banco da frente, torcendo para não ser parada pela polícia no meu caminho até casa… Essa é uma lembrança engraçada.

W (NM): E ninguém filmou isso?

LF: Não, todo mundo tinha ido embora, nós éramos os únicos lá.

W (NM): Esse seria um vídeo engraçado.

LF: Sim, todo mundo filma tudo hoje em dia.

W (NM): Sim, eu sei, por isso que eu perguntei. Se fosse hoje em dia, seria muito difícil escapar. De qualquer forma, como foi o processo de ser gerenciada pela Sharon Osbourne?

LF: Foi OK. Ela é uma boa agente. Mas na época, ela estava com muitos problemas familiares, e estava difícil para ela me gerenciar, porque ela estava com muito problemas. Então isso começou a me afetar, como artista, e eu tive que deixá-la. Eu amo a Sharon, mas eu não tive escolha.

E eu aluguei um galpão e me ensinei a cantar e tocar ao mesmo tempo. E não foi fácil, foi difícil.”

W (NM): Falando sobre o seu álbum novo, parabéns pelo “Living like a Runaway”. É muito diferente do “Wicked Wonderland”. Você poderia nos falar um pouco sobre o processo de criar um álbum tão bacana novamente?

LF: Ele está indo muito bem. Muito bem, até agora está tudo bem. Nós estamos conseguindo muito tempo de ar com a música “Living like a Runaway”. A “Living like a Runaway” está sendo muito tocada. É a favorita de todo mundo até agora. E ontem nós fizemos uma sessão de autógrafos em uma loja de discos, e todo mundo comprou o álbum, devia ter uns 200 álbuns, 250, 200 álbuns que as pessoas compraram – CDs e o vinil, agora também saiu o vinil. As pessoas estão começando a colecionar vinil de novo, o que é fenomenal.

W (NM): Sim, eu acho ótimo. As pessoas querem a coisa de verdade de novo.

LF: Sim, eles querem. E é lindo, é um vinil muito bonito, é vermelho, vermelho maçã do amor.

W (NM): E ainda falando sobre o seu último álbum, como foi trabalhar com o Gary Holt no álbum novo? Ele também é um grande músico, não é?

LF: O Gary foi uma benção. Nós estávamos procurando um produtor na época, eu havia conversando com muitos produtores… Eu não conseguia a resposta certa desses caras, eu não conseguia fazer com que eles se comprometessem com a gravação desse álbum, eles não se convenciam. E todos eles pensavam “Não, vai ser muito datado, ou vai soar muito anos 80…”. Eles estavam cheios de desculpas porque não podiam gravar, eles não queriam gravar. E daí eu conheci o Gary, e o Gary não foi nada assim, o Gary literalmente terminava as minhas frases. Eu começava uma frase e o Gary terminava essa frase. Era quase como se nós estivéssemos lendo as mentes uns dos outros, foi muito incrível, era para ser. E quando nós nos juntamos no estúdio, nós conseguimos trabalhar juntos como músicos e nós sentíamos as mesmas coisas, tipo, eu dizia, por exemplo “Gary, e se nós colocássemos uma guitarra rítmica aqui no acústico, e alguns tamborins ali…” e o Gary dizia “Sim, ótima ideia!”. Nós dávamos ao álbum a nossa performance original, e ficamos com ela. Os vocais do álbum são as performances originais, eles não foram refeitos de novo, e de novo, e de novo… Alguns produtores fazem você refazer os seus vocais até o ponto que fica estéril. Não tem mais sentimento, pode ser que esteja no tom certo, e completamente afinado, mas perde a sensação, é quase como quando você faz sexo pela primeira vez com uma pessoa que você ama, é aquela sensação que você não pode reproduzir. E eu acho que nós conseguimos capturar isso nesse álbum mantendo as performances originais dos vocais e das guitarras. Nós não cortamos e colamos no Pro Tools, às vezes dá para você editar no Pro Tools… Para nós, eu acho que essa é uma maneira preguiçosa de gravar. Então nós não cortamos e colamos nada, tudo foi gravado originalmente, o segundo verso é um verso diferente do primeiro, o terceiro verso é diferente do segundo verso, então mantém o seu interesse. Sabe, você não está ouvindo a mesma coisa de novo, e de novo.

W (NM): Excelente, eu acho que isso se reflete nesse ótimo álbum que você lançou. Então você poderia escolher uma música da sua carreira que você tem muito orgulho de ter escrito, para que nós possamos ouvi-la no nosso programa agora?

LF: Ah, nossa… Claro, muitas pessoas estão tocando “Living like a Runaway” aqui nos Estados Unidos.

W (NM): Eu sei que você já deve ter respondido isso muitas vezes antes, mas eu tenho que te perguntar de qualquer maneira. Existe alguma chance dos The Runaways voltarem a tocar juntas, talvez em uma turnê ou um show ou algo assim?

LF: Eu realmente não sei. Eu sei que a Cherrie já disse que sim, e eu sei que eu toparia em um instante, mas eu não sei o que a Joan está fazendo, sabe, depende da Joan, ela que ainda não se comprometeu. E nós teríamos que montar uma sessão rítmica… Eu não sei, depende da Joan.

W (NM): A outra pergunta que você já deve ter respondido 200 vezes, com certeza, e eu tenho que perguntar novamente é: o que você achou do filme?

LF: Eu não assisti.

W (NM): Verdade?

LF: Sim, eu não quero ver. Eu não estou interessada em assistir, eu não acho que é fiel ao que os The Runaways eram de verdade, pelo que entendi do que os fazem que assistiram e me contaram. Então eu não tenho desejo de assistir. Eu vi o trailer, e foi o suficiente para mim.

W (NM): OK, OK. Então, mudando de assunto mais uma vez, você está fazendo turnê com o Poison e o Def Leppard. É uma lineup que vocês vão continuar a fazer juntos? E como é a sua relação com esses caras?

LF: Ah, eles são ótimos, é como fazer turnê com um monte de irmãos mais velhos. Eles são muitos cordiais, eles fazem de tudo para ajudar, eles… É uma grande honra participar dessa turnê e fazer uma turnê com esses maravilhosos músicos e ótimas pessoas. Eles têm sido muito bons conosco.

W (NM): E você acha que os brasileiros podem sonhar em ver essa lineup aqui?

LF: Eu não sei o que o futuro guarda, mas espero que ele nos leve para o Brasil. Eu acho que já está na hora.

Então nós vamos para o hospital para crianças para tocar guitarra, e nós doamos todos os lucros dos shows para o combate ao câncer de mama.”

W (NM): Um dos nossos apresentadores, o Daniel, ele está em Nova York agora, ele vai assistir vocês, então ele está muito empolgado com isso.

LF: Em qual show ele vai?

W (NM): Perto de Nova York.

LF: É, legal.

W (NM): Nós sabemos que você está envolvida em ajudar a angariar fundos para combater o câncer de mama. Você poderia falar para os nossos ouvintes um pouco sobre o seu envolvimento com uma causa tão nobre?

LF: Sim, a minha mãe morreu de câncer de mama. E desde que minha mãe faleceu, em 1990, eu venho ajudando o Hard Rock. Todo ano eu ajudo o Hard Rock Hotel e Cassino com doações para o câncer de mama e crianças com câncer. Então nós vamos para o hospital para crianças Joe DiMaggio para tocar guitarra, tocar violão e conversar com as crianças, e nós doamos todos os lucros dos shows para o combate ao câncer de mama.

W (NM): Então, falando sobre o Brasil, quando os brasileiros vão finalmente poder ver a Lita Ford? Você já veio para o Brasil?

LF: Não, nunca. Mas eu morei em Miami durante muito tempo, e tem muitos brasileiros vivendo em Miami. Mas isso não é a mesma coisa que vir para o Brasil, eu sei. Eu vou ficar com os dedos cruzados esperando que nós consigamos ir em breve. Já passou da hora.

W (NM): Sim, você tem razão. Nós estamos quase acabando a nossa entrevista. O que você diria para uma garota de 15 anos que está começando a tocar guitarra e te vê como um modelo?

LF: Eu só… Eu diria para ela seguir o seu coração, e fazer o que está no seu coração, não deixe que ninguém te diga algo diferente do que você sente. Se você sente que quer tocar alguma coisa, então toque. Não deixe que as pessoas te mudem.

W (NM): Eu acho que as garotas vão gostar de ouvir isso. Então, antes de terminarmos, eu gostaria de agradecê-la pelo seu tempo, Lita, e obrigado pelo seu último álbum, nós realmente achamos que é ótimo, e nós estaremos aqui, tentando encontrar uma forma de trazer você para o Brasil. Nós estamos em contato com muitos promoters aqui, tenho certeza que vamos nos encontrar em breve, e eu espero que você faça um ótimo show em Nova York. E deixe uma última mensagem para os nossos ouvintes, por favor.

LF: Tudo bem, aqui é a Lita Ford. Que Deus abençoe a todos vocês, e espero vê-los em breve.

W (NM): OK, Lita, muito obrigado mais uma vez, tudo de bom, nós esperamos que dê tudo certo para você.

LF: Obrigada, espero poder vê-los logo. Eu adoraria.

W (NM): OK, muito obrigado. Até mais.

LF: OK, tchau!

W (NM): Tchau!

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