A banda está em seu melhor momento com o disco You Won’t Get What You Want

O Daughters não é a banda de rock com a qual o público brasileiro está acostumado. É difícil colocá-los em algum gênero musical, uma vez que isso seria diminutivo para o inesperado som da banda. Há elementos de noise rock, industrial, grindcore e metal. Uma mistura que não é das mais comuns. É um som extremamente agressivo. Talvez, por isso, mesmo com 17 anos de banda, é a primeira vez que vêm ao Brasil.

O guitarrista Nicholas Sadler, em conversa com o Wikimetal, preferiu não se ater às diversas variações de gênero que a banda carrega. “Eu nos enxergo como uma banda de rock and roll. É bem básico, mas é um tributo ao rock que nós sempre fizemos com o grupo”. Ainda assim, o som dos caras é abrasivo, dissonante e imprevisível. Algo como a trilha-sonora de um misto de filme de terror com pesadelo.

O mais recente álbum, You Won’t Get What You Want, é preciso na descrição do que podemos esperar, ou não esperar, deles. “Você não terá o que quer”. O disco já chama a atenção pela duração. Enquanto algumas faixas de trabalhos anteriores do Daughters possuíam apenas alguns segundos, aqui encontramos músicas de sete minutos. É como se a banda tivesse guardado material por muito tempo e agora precisasse liberar algo entalado com a maior urgência possível.

Eles ficaram separados por oito anos por causa de brigas, demissões e drogas. Depois de todo esse tempo, Sadler e o vocalista Alexis Marshall foram enganados para que o grupo pudesse voltar à ativa. “Nós temos um amigo em comum e ele disse para mim que Alexis queria me encontrar pra pedir desculpa. E falou pro Alexis que eu queria encontrar com ele pra pedir desculpa”, contou o guitarrista. “Fomos jantar e percebemos que era mentira. Mas, alguns minutos depois resolvemos fazer um novo álbum”.

Adler considera “muito inesperado” que, 17 anos depois, eles ainda sejam uma banda. “Eu tinha 19 anos quando comecei, agora tenho 36. Muita coisa mudou; as músicas que eu ouço, os filmes que assisto. O que eu gosto na música mudou totalmente. Muita gente acha estranho mas eu não gosto de música pesada, por exemplo. Meu interesse é no conceitual. Na alma e no sentimento.”

De álbum em álbum, isso vem ficando mais claro, enquanto, constantemente, os integrantes se tornam músicos cada vez melhores. E a filosofia de “não ter fronteiras para a arte” ajuda na concepção de cada novo material. “Esse disco basicamente foi escrito por mim atrás de um computador. Cada um de nós tem uma família e mora em um lugar diferente. Conseguíamos nos encontrar uma vez por ano, eu acho. Então eu gerava os sons pelo computador, gravava todos os instrumentos, colocava no Dropbox e mandava pra eles por e-mail”, contou.

“Em um momento, eu parei de pensar no que é o Daughters e coloquei ali o que eu queria ouvir. Quis expandir o que as pessoas ouviam nos últimos álbuns. Eu não queria fazer uma faixa de cinco segundos”, explicou Adler. Desse jeito, a música ficava muito mais aterrorizante, segundo ele.

Mas, de onde vem essa vontade de perseguir um som que se aproxima do pesadelo? “Eu me pergunto isso o tempo todo”, brincou. “Não é algo totalmente consciente. Mas, às vezes, quando você está escrevendo uma música, chega numa nota que te parece verdadeira. Acho que as coisas aterrorizantes são as que mais soam naturais”.

Mas Adler também acha que há algo psicológico nessa construção. “Antes eu pensava que era só um jeito conceitual de fazer música. Agora, vendo como crescemos, mudamos, tantos anos depois, percebi que talvez eu não queira admitir. Mas há uma verdade estranha nas músicas, uma aura cruel escondida.”

Se, nos shows, coisas estranhas acontecem (como Nicholas ficar pelado ou vomitar em alguém da plateia), o conselho do guitarrista para os fãs é justamente seguir ao pé da letra o título do recente álbum. “Nem a gente tem nenhum tipo de expectativa sobre nossas performances. Queremos subir lá, soar bem e não desperdiçar o tempo e o dinheiro de ninguém. Quero fazer o melhor trabalho possível para as pessoas que forem ao show. De resto, queremos fazer o que der vontade na hora. E sair de lá felizes com o que fizemos.”

Sem expectativas e sem limites, o Daughters se apresenta no Fabrique Club, em São Paulo, neste domingo, 12 de maio. Com vômito e gente pelada, ou não, o pesadelo dissonante da banda é sempre uma ótima viagem.

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