Vai até a vitrola e separa o disco Machine Head. Em algum momento naquele dia ele iria escuta-lo mais uma vez.”

 

Ele acordou cedo como de costume, mas desta vez a preguiça lhe deu a licença para que ele levantasse de súbito. Na pia se livra definitivamente do sono e das remelas que lhe assombram o rosto magro e pálido.

Vai até a vitrola e separa o disco Machine Head. Em algum momento naquele dia ele iria escuta-lo mais uma vez.

A barba estava por fazer, igual ao dia em que a conheceu; áspera. São nas horas menos próprias que os amores passam como trens atrasados nas estações vazias e secas de nossos corações. Quando nossos corações estão de braços dados com o outono, não esperamos folhas vivas.

E foi num dia desses que ela, toda clorofila, fotossindeou aquela alma sem poros. Quando ele atravessa o corredor e chega à sala, sente o cheiro da noite passada. Noite de insônia. Na mesa, o charuto apagado e a xícara de café e a velha Strato jogada no chão são os bibelôs que enfeitam aquela manhã perfumada.

Para ele, a mistura do paladar das folhas cubanas do charuto com uma xícara de um bom café brasileiro eram sublimes.  Só perdiam realmente para o cheiro do orgasmo dela. Pois aquele orgasmo era a mistura dos seis sentidos juntos. Senti-la com as mãos relaxar após a fúria, inalar o seu perfume mais profundo, beijar o seu suor com ternura, escutar a canção do seu suspiro, vê-la fechar os olhos para dormir. E o sexto, o mais nobre dos sentidos: Amá-la. Somente amá-la. Redundantemente amá-la.

Enquanto se vestia relembrou o Neruda predileto dela para dizer mais uma vez, baixinho, como uma oração, para que ela não esquecesse do dia do primeiro beijo.

No ponto de ônibus, saindo da cantina de sempre, regados por vinho e guiados por Baco, o céu resolve mandar sua benção em forma de gotas, muitas gotas de chuva.

Completamente molhados e bêbados, os dois eram apenas sorrisos e gargalhadas. E foi bem ali, naquela espera sem fim por um transporte que se tornara completamente dispensável, que ele reparou que os olhos dela eram da cor de metal e, depois, a beijou.

Ele termina de se vestir quase que transportado para aquele momento. Olhou-se no espelho. Era preciso estar impecável. O melhor terno, a gravata mais cara e as borrifadas do Jean-Paul Gautier, trazido do ano novo passado na cidade luz.

Apenas a barba por fazer destoava de tamanha elegância, mas era o gosto da patroa, não dava pra contrariar.

No mancebo ao lado da porta, pegou seu chapéu, sua bengala e, com os olhos de metal, foi para o enterro da mulher que viveu com ele por 47 anos.

 

Amo o pedaço de terra que tu és, porque das campinas planetárias outra estrela não tenho. Tu repetes a multiplicação do universo”.

Pablo Neruda

 

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