Confira mais um texto escrito por uma de nossas WikiSisters:

A ideia de que banda nacional não tem qualidade já está tão enraizada que muita gente nem questiona e simplesmente não se dá ao trabalho de conhecer os trabalhos dessas bandas”

por Diana ‘NoWay’ Ungaro Arnos

O termo foi cunhado pelo “quase nada polêmico” Nelson Rodrigues, que disse: “por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Ou seja, essa mania que brasileiro tem de achar que tudo que é nacional não presta e tudo que vem de fora é melhor e, infelizmente, acabamos encontrando traços desse complexo também no meio do Metal.

Pior: diferente do que muita gente imagina, não é só o público que torce o nariz para as bandas nacionais. Muitas bandas usam esse complexo como muleta e acabam alimentando esse preconceito. Começando pelo comportamento do público, todo mundo conhece alguém que foi em algum show por aqui de alguma banda obscura da Europa e ficou super orgulhoso, mas esse alguém raramente se empolga em ir a shows de bandas locais e se interessa menos ainda em acompanhar a agenda de eventos da região (e convenhamos, com Facebook e etc ficou muito mais fácil, vai).

Muitas das vezes, as pessoas nem julgam a qualidade das bandas brasileiras, elas simplesmente não se interessam”

Muitas das vezes, essas pessoas nem julgam a qualidade das bandas brasileiras, elas simplesmente não se interessam. A ideia de que banda nacional não tem qualidade já está tão enraizada que muita gente nem questiona e simplesmente não se dá ao trabalho de conhecer os trabalhos dessas bandas. É comum quando alguém ouve ou assiste ao show de uma banda nacional se surpreender e dizer que “parece banda gringa”.

Uma vez, depois de tocar em um festival de grande porte, fomos ao backstage falar com a imprensa local. Uma dupla veio toda empolgada nos entrevistar (eu não vou falar quem são nem de qual site, porque eu sinceramente não lembro, mas eram muito gente boa). Entre as perguntas de praxe e alguns elogios, um deles soltou o seguinte comentário enquanto falava comigo: “Eu pensei, ‘cara, essa mina é importada, não tem coisa assim no Brasil não'”. Claro que foi um elogio, mas na hora fiquei dividida entre estar agradecida e ficar decepcionada pela visão de que “no Brasil não tem coisa muito boa”.

Outra situação: numa rápida e pequena reunião, em que o assunto era performance de palco e visual, alguém disse “eu vi uns vídeos e umas fotos, vocês tem uma presença de palco muito boa e um visual bacana, nível de banda gringa mesmo” (essa pessoa eu lembro quem é, mas por segurança eu prefiro omitir para evitar problemas). E eu tive a mesma sensação da situação anterior.

Não, eu não sou patriota, mas eu sou a favor de olhar para o lado e ver o que pode ser aproveitado, além de achar o preconceito com bandas locais bobo. Afinal, o que todos nós queremos é ouvir um som legal e tomar uma cerveja (ok, você pode até não beber, mas vai querer curtir um som). Então na sua cidade tem 2 ou 3 bandas bem legais que fazem um ótimo show e vão tocar num bar de Rock/Metal a meia hora de ônibus da sua casa por 10 reais. Você não vai. Mas quando acontece um show de banda estrangeira a 200 reais numa casa de show que leva 2h30 para chegar, você vai e depois ainda dorme durante o finzinho da madrugada do lado de fora de uma estação até as 4h da manhã para poder voltar.

Vamos tentar ser menos preconceituosos e também tentar abrir a cabeça daqueles que não acreditam no Metal Nacional”

Claro que não há nada de errado em curtir as bandas de fora (todo mundo curte, eu inclusive). Mas por que quando você ouve falar numa banda perdida lá do leste europeu vai atrás para ouvir e conhecer e se ouve falar de uma banda do estado vizinho não mexe 1 dedo para ouvir 3 minutos de música? Ok, muita gente já sabe e critica esse problema de menosprezar a cena local. Mas quantas pessoas reparam que muitas bandas se aproveitam dessa situação e usam isso como muleta?

É fato que tentar manter uma banda de Metal é complicado em nosso país. Parece que tudo que tentamos fazer é sempre 3x mais difícil e mais caro do que seria em outro lugar mais favorável ao gênero que escolhemos representar.
Acontece que, infelizmente, algumas bandas e músicos usam isso como desculpa para justificar a má qualidade técnica, visual e, algumas vezes, até a sonoridade ruim em seus shows e suas gravações. Afinal, é muito mais fácil jogar a culpa no ambiente do que admitir que precisa ensaiar mais, estudar mais ou testar com atenção diferentes timbres. “Mais difícil” não é a mesma coisa que “impossível”.

Não é difícil acreditar que um show porcaria de uma banda desleixada só ajuda a aumentar o preconceito. Vamos tentar ser menos preconceituosos e também tentar abrir a cabeça daqueles que não acreditam no Metal Nacional. Não faltam bandas boas para apresentar aos amigos, e sobram eventos legais no underground. E você, músico, faça sua parte: sua performance deve, no mínimo, valer o ingresso. Mas não nivele por baixo 😉

P.S.: Só para deixar claro, isso de “gringo é bem melhor” não acontece só com o Heavy Metal e existem vários fatores históricos e culturais que não cabem discutir aqui e que ajudaram a alimentar esse comportamento. Só para servir de exemplo e curiosidade: centenas de anos atrás, quando a família real de Portugal veio para o Brasil, houve uma crise de piolhos em todos no navio (lembrando que a viagem durava meses e era bem precária). Então todos os homens e mulheres da corte rasparam as cabeças e as mulheres desembarcaram aqui com panos amarrados como turbantes, para não saírem por aí carecas. O que as brasileiras fizeram? Rasparam as cabeças e começaram a usar um pano amarrado na cabeça porque acharam que era moda na Europa.

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