Fúria – a história e as histórias do Heavy Metal no Brasil

 

Capítulo 4: 1983, o Ano Zero do Heavy Metal Brasileiro

Por Luiz Cesar Pimentel & Wikimetal

 

Primeiro disco lançado de um grupo de Metal do país acontecera no ano anterior. Primeiros passos com publicações também. Woodstock Discos, a loja-símbolo do Metal nacional, nascera em 1978. Mas foi em 1983 que aconteceu a maior conjunção de fatores que tornam aquele o ano em que o Metal nasceu de verdade no Brasil. Em janeiro, o primeiro dos grandes shows internacionais – Van Halen. Na mesma época, o cine Gazeta, na avenida Paulista, passa o filme/show “Let There Be Rock”, do AC/DC. Na pré-estreia, o público mostra sede por shows (em qualquer formato) e quebra diversas cadeiras.

Duas bandas começam a organizar apresentações na raça. No dia da libertação dos escravos, 13 de maio, Cérbero (influências maiores: Motörhead e Iron Maiden, segundo release da época) e Vírus (Black Sabbath) tocam no salão A8, na Via Anchieta, 1431, em São Bernardo do Campo. Mesma época em que o Centúrias grava sua primeira demo-tape. No meio do ano, em junho, Kiss faz turnê por aqui, tem videoclipe exibido no programa dominical de maior audiência, o Fantástico (“I Love It Loud”, espécie de precursor da moda zumbi) e o gênero ganha ares de música de arena. Tem Paul Stanley quebrando a guitarra e tem repetição de “I Love It Loud” no bis. Pena que vieram com o insosso Vinnie Vincent na guitarra, no lugar do lendário Ace Frehley.

Karisma chamou atenção geral e pouquíssimo se falou posteriormente

Outubro daquele ano, é lançado, de forma independente um marco do movimento, o primeiro e único disco do Karisma, “Sweet Revenge”. Até o final do ano, teríamos ainda duas manifestações que fariam diferença para solidificação do movimento. No dia 20 de novembro, aconteceu o primeiro “Praça do Rock”, organizado por Celso Barbieri, no Parque da Aclimação, em São Paulo – festival que juntava bandas, neste debute, que flertavam com o Metal: Anthro, Ave de Veludo, Cygnus e Anacrusa. Na segunda edição, dali a um mês, já ocuparia a linha de frente um grupo de Heavy com todos predicados Metal, Harppia. No mesmo dezembro, dia 3, outro projeto clássico estreia – a matinê Metal na casa noturna Carbono 14, no bairro do Bixiga, em São Paulo. No local, os andares eram divididos entre projeção de vídeos, shows, “bailes com fitas”, reuniões, bilhar e pebolim. O primeiro sábado teve vídeo do AC/DC, da turnê do “For Those About To Rock” e show do YX. Na semana seguinte, vídeo do Black Sabbath com Dio e show do Harppia. Já no dia 17, vídeo do Whitesnake e show do Centúrias Como laço do pacote, temos o debute do Karisma, que por ter sido uma banda que apareceu, chamou atenção geral e da qual pouquíssimo se falou posteriormente, merece um destaque. Rudolf Leschonski, baterista do grupo, fala 30 anos depois:

Como e quando você e os outros dois integrantes começaram a ouvir e gostar de Metal?

Metal mesmo, pelo que me lembro, começamos a ouvir Judas Priest (época do “Sin After Sin”), Motörhead (época do “Bomber”), mas já tinhamos ouvido muito Led Zeppelin, Uriah Heep, Black Sabbath. Aliás, acho que o primeiro mesmo foi o Black Sabbath, que na época nem era considerado Metal. Ouvíamos muito Rock Progressivo, tipo Pink Floyd, Yes, Genesis (com Peter Gabriel), muito Kiss, Alice Cooper, BTO, Rush etc.

Como surgiu a banda?

Eu e o Helmut (Leschonski, guitarrista e vocalista) já tocávamos desde adolescentes, tínhamos muita influência de Pink Floyd, tocávamos muita coisa do “Ummagumma”. Daí para frente foi um crescente, sempre trocando de membros na banda. O primeiro nome que usamos foi Harpia (com um “p” só). Depois fizemos uma banda chamada Luz del Fuego. O Karisma veio a seguir. O nome Karisma foi tirado da música do Kiss Charisma, do disco “Dinasty”, colocamos a letra “K” no começo para que não chamassem a banda de “Xarisma”. Tivemos várias fases de estilos no Karisma, Hard Rock, Rock & Roll, Blues, Progressivo, sempre cantando em português. Foi quando eu cheguei para o Rudolf e o Nelson (Fountain, baixista) um dia e disse: De hoje em diante eu quero tocar Heavy Metal e cantado em inglês, se vocês não têm interesse, eu saio da banda e vou procurar músicos para formar outra. Eles gostaram de imediato, logo depois veio a ideia de gravar um LP independente, coisa que na época não era nada barato.

Daí até o lançamento do disco – como foi a logística para demo tape, gravação, lançamento, gravadora, promoção?

Músicas nós tínhamos várias. Procuramos um estúdio em Santo André, marcamos a data para gravação, no total foram 12 horas de estúdio, entre gravação, mixagem e montagem da fita matriz. Aí faltou dinheiro para fazer a capa. Entramos em contato com o Luis Calanca, da Baratos Afins, e ele aceitou na hora fazer a capa em troca de 200 LPs. Foram feitos no total 1000 LPs. Quanto à promoção do disco, devemos muito ao Beto Peninha (Capitão de Aço), que trabalhava na 97FM de Santo André. Ele tocou muito o nosso disco, os amigos de outras bandas achavam que nós pagávamos para que tocassem nosso disco.(risos) Os outros lançamentos da época – Stress, Dorsal Atlântica, Sepultura/Overdose, e principalmente os SP Metal – elevaram as bandas, meio que a celebridades, dentro do mundo underground que era o Metal à ocasião. Karisma não se aproveitou disso.

Rudolf Leschonski, baterista do Karisma

Por quê?

Não sei bem. Acho que faltou darmos prioridade à banda. Nunca colocamos a banda em primeiro plano, tinha trabalho, depois casamento, depois a banda, não necessariamente nessa ordem. Hoje eu acho que quem quer viver de música, por exemplo, deve por isso como prioridade em sua vida. Gradativamente a banda foi sumindo.

O que aconteceu?

O primeiro a sair da banda fui eu. Na época havia entrado na banda o guitarrista Cesar Achon. Até então eu é que tinha a maioria das idéias para a banda. A partir do dia em que o Cesar entrou, as coisas começaram a mudar, e eu fui me distanciando deles, fui ficando meio de lado, tipo os três de um lado e eu de outro. As idéias deles não batiam com as minhas, foi aí que resolvi sair. Depois disso eles tiveram dois bateristas, o Ricardo e o Fábio. Na verdade eu acho que a banda nunca teve um líder que soubesse comandar, isso de cada um dar uma ideia diferente acaba virando uma bagunça.

Por que o disco nunca foi lançado em CD?

Tivemos uma proposta de lançamento em CD mas não me interessou. A qualidade da gravação também deixa a desejar, não sei se ficaria bom em CD. Acho que fica mais legal desse jeito de nunca ter saído em CD, pessoalmente eu acho o disco de vinil muito mais interessante que o CD.

“Sweet Revenge”, o primeiro e único disco do Karisma,

Nesses anos todos, houve vontade de voltar com a banda, tocar de novo como Karisma?

Da minha parte, não. Foi uma fase que passamos e temos muito orgulho dela, mas hoje não faria mais sentido tocar com o nome Karisma e aquele estilo de som. Eu gostaria muito de voltar a tocar, mas sem a obrigação de tocar um estilo definido. Para o meu gosto o importante é que fosse uma banda de Rock, pois é o estilo de música que eu gosto.

Qual é a história da banda que ninguém sabe?

Uma história legal que pouca gente sabe é que tentamos tocar no primeiro Rock In Rio. Eu e o Nelson fomos até o escritório do Roberto Medina, deixamos na recepção (pois não fomos atendidos, é lógico) um book de fotos da banda, um release e um LP do Karisma e pediram para aguardar uma resposta. Lógico que não tínhamos na época sequer noção da produção gigantesca que é o Rock In Rio, só ouvimos falar que teria um festival de Rock no Rio de Janeiro chamado Rock In Rio e fomos pra lá. Nunca tivemos resposta nenhuma deles mas nos deu muito orgulho depois ler em alguns jornais a opinião de pessoas que estiveram no Rock in Rio dizendo que faltou a banda Karisma. Dá prá acreditar nisso? Espero que alguém daquele escritório na época tenha lido isso e pensado: “Putz, eu não acredito”.

Como estão os integrantes hoje?

Hoje eu e o Helmut moramos no interior de São Paulo, na região de São José do Rio Preto, e sem intenções de voltar para Santo André. Tá louco, aquilo não é mais vida. Eu sou divorciado, não tenho filhos e trabalho numa grande empresa de móveis. O Helmut é professor de inglês, tem sua familia, os dois filhos quase casando já. O Nelson é casado com minha prima e não temos mais contato com eles. Pelo que sei eles ainda moram em Santo André e tem três filhas.

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Em breve: Capítulo 5.
Leia Prefácio (aka Carmina Burana)
Leia Capítulo 1: Nativity In Black
Leia Capítulo 2: Crusader, O Desembarque no Brasil
Leia Capítulo 3: A primeira explosão acontece em Belém do Pará

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