Texto de Nilo Vieira

As duas religiões com mais praticantes na Bélgica são o cristianismo e o agnosticismo. De certa forma, esse contraste ajuda a entender o Amenra, banda oriunda da cidade de Courtrai. A simbologia religiosa está no nome (“amém Ra”), todos os discos possuem “missa” como título, eles formaram um coletivo chamado de igreja (Church of Ra). E mesmo assim, a trupe capitaneada pelo vocalista Colin H. Van Eeckhout não parece interessada em explicações ou dogmas. Como se o sobrenatural fosse mundano, ou vice-versa.

Com uma mistura pesada entre sludge metal, post-rock e post-hardcore, a reputação do quinteto cresceu principalmente pelos shows. Entre projeções ao vivo, volume ensurdecedor e rituais de autoflagelação, já virou clichê dizer que as apresentações são quase uma experiência religiosa. Basta dizer que o Neurosis, principal influência e cujo selo Neurot Recordings lança os discos do Amenra desde 2012, parou de utilizar projeções em seus shows após se intimidar com o alto nível com que os belgas o faziam.

Prestes a trazer toda essa intensidade em três datas no país (28/02 no Rio de Janeiro, 29/02 em Belo Horizonte e 01/03 em São Paulo), Colin conversou conosco. Confira abaixo.

WIKIMETAL: Será a primeira vez da banda no Brasil em março. O que as pessoas podem esperar e o que vocês esperam?

COLIN: Minha resposta padrão para essa pergunta é que o público pode esperar por um show do Amenra, nada mais e nada menos. Acredite, é mais do que alguns podem aguentar. Vamos fazer nosso melhor como sempre tentamos. Sempre é sobre não termos misericórdia ou compaixão por nós mesmos no palco, damos tudo que temos dentro de nós em cada noite. Quanto mais pesado tocamos, mais entregamos, e mais facilmente te “faremos chegar lá”. Nós contaremos nossa história desenfreada, da forma mais completa possível.

Sobre o que esperamos, nosso credo é “espere nada, receba tudo”. Nosso guitarrista Mathieu tocou em seu belo país algumas vezes, e falou muito bem. Então estamos ansiosos para estar aí, obviamente.

WIKIMETAL: Labirinto e Basalt abrirão os shows do Amenra. O que acha das bandas?

COLIN: Nós amamos os rapazes e gurias do Labirinto. Tocamos com eles na Europa, e nos divertimos juntos. Adoramos o álbum deles (Gehenna, 2017, que conta com o guitarrista Mathieu Vandekerckhove na faixa “Locrus”). Basalt ainda precisamos conferir… 

WIKIMETAL: É curioso que um país do tamanho da Bélgica tenha tantas línguas oficiais, e isso aparece em seus álbuns. Cantar em vários idiomas carrega algum significado particular pra você?

COLIN: De fato, nosso país tem três línguas oficiais: holandês, francês e alemão. Talvez seja por isso que nunca nos limitados a usar apenas um idioma. A escolha das letras depende do significado atrelado à pronúncia das palavras. Se você traduzir a mesma sentença ou parágrafo em várias línguas, sempre haverá uma que soará mais profunda que o resto, que parece transmitir melhor a essência, e então é escolhida.

Outra coisa que me guia nessa direção é que estas letras pertencem a todos. A dor não tem idioma. Então faz mais sentido abordar o máximo de pessoas possíveis em sua própria língua.

WIKIMETAL: Ainda nesse tópico, falei com a Kristin Hayter, (d)a Lingua Ignota, ano passado e ela descreveu o trabalho como uma linguagem para expressar dor. Vocês excursionaram juntos, e tanto ela como o Amenra levam essa ideia para o plano físico em performances. O quão importante é o conceito de penitência pra sua arte, ou diria que é apenas natural?

COLIN: Dor é uma parte inegável da vida. Pessoalmente não vejo nossa música como penitência, mas como um ataque que ameaça o que há de precioso para alguém. Como uma luta, ou talvez até ir pra guerra. A fisicalidade apenas enfatiza a necessidade, a natureza verdadeira, a força. Precisa machucar, senão significa que não brigamos forte o suficiente. Houve um tempo onde senti pessoalmente que meu sangue precisava escorrer para compensar que as pessoas ao meu redor sofriam. Foi a única vez que me senti próximo ao conceito de penitência. 

WIKIMETAL: A discografia do Amenra possui um senso de continuidade, tanto musical como tematicamente. Vocês estão na estrada por mais de vinte anos. Tal agonia cessará um dia?

COLIN: Uma vida humana nunca é poupada de mágoas. Se você ama, sempre haverá dor. Tudo acaba em lágrimas, sempre, é uma questão de tempo. A dor é uma constante, a tristeza nunca acaba.

WIKIMETAL: Há uma profunda aura de espiritualidade na sua música. Qual é sua relação com religiões?

COLIN: Acredito que exista algo lá fora, e que até conseguimos “invocá-lo” às vezes. Algo em que você pode retirar energia, força, esperança. Algo para acreditar, que você possa contar. Não tenho ideia do porquê nos encontramos no lugar onde estamos agora. Crença e fé são necessidades para um humano, e mesmo assim não precisam ser definidos.

WIKIMETAL: Você formou a Church of Ra em 2005, um coletivo composto para trabalhar junto de músicos locais com mentalidade parecida. Hoje, a cena belga está recebendo mais atenção, com bandas como o Brutus e Oathbreaker, que faz parte do coletivo desde o começo. Ainda acompanha o pessoal local?

COLIN: Claro, a Bélgica é tão pequena. Um pequeno lago com todos esses músicos talentosos. Nos esbarramos semanalmente, ajudando um ao outro aqui e ali. É realmente bonito, aquece meu coração só de pensar. Penso que nos inspiramos e apoiamos cada um com cada pequena conquista individual. Não há rivalidade. só camaradagem. 

WIKIMETAL Na entrevista para o Nós Somos a Tempestade 2, livro do jornalista Luiz Mazetto, você mencionou que não tinha tempo de assistir filmes. Em abril, o Amenra vai sonorizar O Espelho, do Andrei Tarkovsky, ao vivo. Como surgiu essa ideia? Cheguei a brincar com o Stephen O’ Malley (Sunn O)))) sobre fazer algo assim com o Stalker, que é o filme favorito dele, e ele foi bem irredutível na resposta…

COLIN: Não nos intimidamos facilmente, e não nos assustamos em mergulhar em desafios do qual não somos dignos (risos). É provavelmente um de seus filmes mais difíceis, na minha opinião, mas não significa que não é algo factível. Fomos convidados pelo festival MOOV para fazer a trilha de algum filme de nossa escolha no Concert Hall em Bruges. Automaticamente fomos em direção ao Tarkovsky, pois foi o diretor que mais nos inspirou ao longo dos anos.

WIKIMETAL: Qual a influência da obra do diretor russo no Amenra?

COLIN: Nostalgia e melancolia são presentes em ambos os mundos. Há uma abordagem analítica mas poética em nossos trabalhamos, é exatamente onde nos encontramos. Sempre tive muito respeito pelo diretor, já que ele realmente acreditou em sua visão e a seguiu até o fim, apesar do que seus contemporâneos esperavam ou exigiam de seu trabalho. Estava a frente de seu tempo, e raramente vi artistas tão detalhados como ele foi. Envolver até seus pais (graduados em literatura) torna a arte ainda mais “dele” – poesia, imagem, tudo combinado. Criou seu próprio mundo, que ninguém foi capaz de recriar. Nós extraímos muita energia e ideias de suas criações.

WIKIMETAL: A música da banda pode ser descrita como cinzenta, mas o Amenra tem uma abordagem bem visual, com projeções ao vivo e até um livro. Você sente a necessidade de traduzir seu trabalho em meios mais palpáveis? 

COLIN: Creio que é uma questão de espalhar nosso “mundo” ou moral abstrata por quaisquer meios necessários. Utilizar novos formatos de mídia faz tudo parecer como uma lousa limpa novamente, onde a inspiração parece mais fácil de compreender. É um desafio “fazer o que fazemos” fora dos meios familiares. Há muito a ser dito do nosso trabalho que não pode ser traduzido apenas com letras e música sozinhas mais. Queremos alcançar ou tocar o máximo de pessoas que pudermos. As pessoas precisam absorver o máximo de energia possível, então sentimos um impulso incrível para criar.