Nosso WikiBrother Caio Papai escreveu o primeiro capítulo de um livro, entitulado “A Longa Estrada do Rock And Roll”:

Quando conseguiu enxergar por completo foi amor a primeira vista. Ele olhava bem a capa do CD, que tinha uma espécie de boneco morto-vivo gigante, com um longo cabelo branco. Ele se curvava usando uma espécie de demônio como marionete”

Caio Papai

Fazia frio em julho e essa é história de um garoto comum que residia na cidade cinza de São Paulo onde os corações são de pedra, algumas igrejas são pequenos empreendimentos e o único verde que realmente importa sai contado da ATM e vai direto para o bolso de quem anda de carro novo e óculos de sol. Seu nome é Theo, garoto de caminhada engraçada, com seu all-star preto e surrado. Um garoto que sempre manteve uma vida igual à de todos os outros de sua idade na infância, frequentava a escola todas as manhãs. De estatura média, cabelos e olhos claros, ouvia pouco rádio, pois grande parte do percurso entre sua casa e a escola fazia dormindo no mais profundo de seu inconsciente, acordava algumas vezes com o balanço do quebra molas. Seu pai era vendedor de uma loja de doces, não muito grande, mas com uma grande variedade de guloseimas, essa loja ficava no final da rua onde residia, por sinal era muito frequentada por colegas de classe de seu filho, devido a proximidade a escola onde estudavam. Sua mãe era professora, lecionava aulas de matemática em escolas publicas, e que para sua sorte não era sua professora.

Theo como qualquer outro garoto, fazia amizades facilmente e se relacionava bem com todos ao seu redor, sempre muito risonho, bom de piadas e travessuras,motivo de levar muitas professoras perderem a paciência, e ao mesmo tempo muito quieto em seu mundo. Para chegar a sala de aula que ficava no terceiro andar do prédio, Theo percorria um longo corredor, onde haviam janelas pelas quais através delas era possível ver o pátio onde os demais estudantes corriam, comiam, caminhavam para suas aulas, ou ficavam conversando em grupos até o professor chegar. Theo tinha um costume, fazia aviões de papel, preenchendo o espaço vazio no meio do avião com pó de giz de lousa, e arremessava o avião dizendo “E lá vai lasca de bacana” (influenciado por um capitulo do Chaves onde o mesmo atira a casca de banana), é claro que após alguns meses, Artur trocou de janela, pois ninguém mais ficava embaixo do “Hangar de Giz”. Além dessa peripécia, já foi pego roubando refrigerantes da cantina, pichando a parede da sala, colando chiclete na cabeça de outras pessoas, soltando bombas na privada do banheiro, e entre outros artigos escolares que não caberiam aqui.

Sim ele era igual a alguns estudantes em postura, mais diferente no que se trata de estudo. Suas notas não eram das melhores, o garoto tinha alguns problemas de concentração para estudar, não absorvia uma só palavra do que a professora falava, sempre prometia que iria reverter essa historia e começaria estudar firme, mas alguns minutos depois já se distraia com qualquer outra coisa a sua frente, muitas vezes fazendo riscos no caderno que logo se transformavam em desenhos nos cantos das folhas e no fim da aula existiam, carros, caveiras, diversos personagens, mais nenhuma equação, ou história de Guerra Fria. Esse era um dos motivos que preocupava sua mãe, pois sempre ficava de marcação em suas provas e seus deveres de casa como manda sua profissão, e claro seu filho teria que ser o exemplo caso um dia fosse sua professora. Mas mesmo assim Theo não se concentrava nas aulas, a única matéria que obtinha boas notas era em educação artística, desenhava bem, os cantos das folhas dos seus cadernos e os muros da escola que o digam. Seu sonho era ser desenhista, de vez em quando era posto a prova, sua professora, aula sim, aula não, trazia instrumentos musicais para variar um pouco o estilo de aula, e exercitar o cérebro dos alunos com a musica, pois leu em alguma revista barata que vende na banca de jornal em frente a escola, que mudando um pouco a aula estimularia o cérebro e fazia-os evoluir.

Theo até tinha uma certa intimidade com os instrumentos, na flauta doce até arriscava assoprar algumas notas desafinadas que mais pareciam com o apito da panela de pressão da sua vó quando fazia feijão, mesmo assim, nada comparado com lápis e papel, ou o barulho de um spray passando em um muro recém pintado. De qualquer forma o que lhe motivava era a sensação de sentir sua mão correndo solta pelo imenso branco que dava a liberdade de sua imaginação fluir, dando vida a sua mente, claro, a educação é muito importante, mais quando se fala em arte, desenho, imaginação, pouco importa que quem descobriu o Brasil foi Cabral ou se Maria Bonita foi mulher de Lampião e não de Zumbi do Palmares.

Seus traços grossos e firmes e sua combinação de cores davam aspectos agressivos aos olhos e ao cérebro de quem os via, o que na maioria das vezes ele sentia até orgulho, pois era diferente dos corações tortos, e de casas vazias na beira da colina em uma tarde ensolarada, ou flores antes da dor do bem me quer, mal me quer.

A maioria de seus amigos residia na rua onde sua avó morava a anos, ali ele passava as férias escolares, muitas vezes esquecendo o lápis e papel porém lembrando os muros, e sprays de tinta, motivo o qual deixava sua avó louca. Também tinha espaço ao futebol de rua, onde sempre era escolhido por último devido a sua falta de habilidade. Era em julho que carrinhos de rolimã sem freio desciam aquela rua, rasgando a noite com o barulho ensurdecedor de ferro raspando no asfalto deixando marcas em forma de “S” no meio da rua. Julho é a época em que o vento sopra forte, favorecendo o céu, que sempre estava lotado e colorido de pipas, e poupando as corridas atrás de vento. Seus dedos eram sempre remendados devido ao cortante utilizado para esse tipo de combate aéreo, e quando sobrava um tempo, ele ia colar papel de seda dando forma a balões, colorindo o céu quando o vento estava escasso.

Aquilo brilhou os olhos do menino, ele sentiu o mesmo impacto de seus desenhos e isso o fez sentir diferente, e então resolveu escolher aquele CD como seu presente de aniversário”

Sentado na esquina conversando com seus amigos, Theo avista o carro de seus pais dobrando a esquina da rua de cima vindo em sua direção, declarando que suas férias estavam no fim e que mais uma vez a rotina de fazer a compra do mês no supermercado estava chegando, como já era de costume de seus pais aquela época do mês. Porém ele lembrou de uma coisa muito importante, que era véspera de seu aniversário e ainda não tinha ideia do que iria ganhar de presente, ou pedir. Theo foi pensativo o caminho todo para fazer uma proposta de aniversário, foi quando seu pai estacionou em uma vaga apertada, puxou o freio de mão do carro e Theo rapidamente perguntou ao seu pai:

– Pai, já estamos perto do meu aniversário, e eu ainda não te pedi nenhum presente, estava pensando se eu posso procurar meu presente por aqui hoje? Estamos no mercado, é provável que eu ache algo que eu goste. – Perguntou Theo enquanto retirava o cinto de segurança e esperava um não de resposta do seu pai.

– Claro, não vejo problemas, desde que caiba no meu bolso! – Respondeu seu pai sorrindo, abrindo a porta e perguntando para sua mãe onde ela havia colocado o ticket do estacionamento.

– Obrigado, pode deixar que irei ver o preço antes de te trazer. – Respondeu Theo também sorrindo já fora do carro.

– Só mais uma coisa – Disse sua mãe enquanto procurava seus óculos de grau na bolsa – Não demora muito que hoje seremos rápidos, vamos comprar pouca coisa, semana passada fui no mercado perto de casa e já comprei algumas coisas, tudo bem ?

– Tudo bem mãe.

Foi dada a largada para a caça ao presente. Theo percorria os corredores do mercado como se fosse alguma maratona de TV no mercado onde você tem alguns minutos para pegar tudo que puder. Seus pés pareciam voar no azulejo branco. Primeiro passou no corredor brinquedos, pegava caixas de super-heróis, mais nenhum deles o atraiu, olhou alguns carros de controle remoto, jogo de tabuleiro, foi dada a primeira desistência, continuou a corrida na seção de materiais escolares, porém como estudo não era seu forte, seu único interesse era o estojo de canetinha, achou muito pouco e mais uma seção foi dispensada rapidamente. Theo já estava na seção de eletrônicos e pensava que não iria encontrar nada, olhou alguns aparelhos de celular, MP3, e além de nenhum ter te chamado a atenção, financeiramente não seria aprovada por seu pai. Quando a seção de esportes ia ficando cada vez mais próxima, Theo decidiu eliminar sem ao menos xeretar devida sua falta de habilidade com os esportes, até que chegou o fim dos corredores, e resolveu percorrer os da seção de musica por estilo.

Ele revirou diversos CD’s e DVD’s do Gospel ao Funk e até alguns livros que estavam expostos próximos aos CD’s, provavelmente indicados por algum sistema de BI. Quando de repente um estrondo forte veio por trás do garoto, provavelmente alguém que estava olhando as gôndolas de DVD’s desastrosamente derrubou tudo no chão fazendo-o ele olhar lentamente para seu lado direito em um movimento que permitiria ver o que estava acontecendo. Ao fazer esse movimento avistou uma prateleira repleta com um único CD, fechou bem os olhos para tentar enxergar melhor o desenho da capa, porem foi em vão, Theo tinha problema na vista e estava com o óculos quebrado, o que era normal para um garoto vindo das férias. Quanto mais chegava perto, mais nítida a imagem ia ficando, quando conseguiu enxergar por completo foi amor a primeira vista. Ele olhava bem a capa do CD, que tinha uma espécie de boneco morto-vivo gigante, com um longo cabelo branco, ele se curvava usando uma espécie de demônio como marionete, em uma paisagem cercada de fogo e raios, aquilo brilhou os olhos do menino, ele sentiu o mesmo impacto de seus desenhos e isso o fez sentir diferente, e então resolveu escolher aquele CD como seu presente de aniversário, porém precisava saber o preço, sem isso não saberia se encontro inesperado teria um final feliz.

Theo foi correndo a um terminal com leitor de código de barras que tinha em um pilar próximo aos CD’s, e esse terminal confirmava que esse presente provavelmente cabia no bolso de seu pai, foi ai então que lembrou das palavras de sua mãe dizendo que seriam breves, e ele não sabia quanto tempo havia se passado desde que se separou, e temeu que seus pais poderiam estar no carro o esperando.

Foi ai que se iniciou a segunda caçada, a de encontrar seu pai. O mercado é grande, ou seja um hipermercado com corredores gigantes, sendo difícil achar uma pessoa, nem ele sabia como conseguiu percorrer tudo aquilo em questão de minutos, e ver tantos candidatos a presente em tão pouco tempo, o garoto corria pelos corredores por sua sorte avistou seus pai na seção de hortifrutigranjeiros, levou o CD para seu pai e começou a falar quase sem ar:

– Pai, achei meu presente de aniversário, eu quero esse CD aqui, não sei nem o que é, e nem qual o estilo de musica, mais deve ser alguma trilha sonora de filme de terror, estou falando pela capa porque nunca ouvi falar desse filme “Iron Maiden” – Contava Theo eufórico ao seu pai, ainda com o CD em mãos.

Então o silencio se quebra, quando sai diretamente das caixas de som uma bateria que lhe traz uma vaga lembrança de uma metralhadora acompanhada de duas guitarras distorcidas”

– Filho você tem certeza que você quer essa coisa de aniversário? – Olhava com o desprezo para o CD, não tinha gostado da capa – Não é melhor, sei lá comprar uma coletânea de musicas famosas e que estão na moda? Tipo esses hits de verão? Alguma coisa que todo mundo escuta ? Aliás, isso aqui não é um jogo não? – Falou seu pai, enquanto pegava o CD das mãos do garoto, e ainda analisava com uma cara de quem “comeu e não gostou”, revirando-o diversas vezes, como quem procura um defeito em algo.

– Pai, tenho certeza que é isso, não sei o porquê, mais isso me chamou a atenção e tenho mais que certeza que é isso que eu quero, hit de verão são chatos, e não é algo que se escute sempre, e tem data de validade, o próximo verão! – Disse o garoto pegando o CD das mãos do pai.

– Bom! – Esvaziava o ar de seus pulmões pelo nariz – Tudo bem, o presente é seu, o aniversário é seu, você é quem escolhe, mas não adianta se arrepender depois, vamos levar, tudo bem? – Disse o pai colocando o CD ao carrinho de compras.

– Tudo bem, obrigado Pai, obrigado Mãe – Não desgrudando o olho do CD.

Item por item foi passado no caixa e as sacolas colocadas no carro, enquanto isso o garoto começou a fuçar nas sacolas até encontrar o tal CD no fundo da sacola plástica. Assim que achou o tal CD, o garoto travou uma batalha até conseguir tirar o plástico que lacra o CD (que é muito difícil por sinal), até que conseguiu abrir com os dentes, e iniciou uma batalha (porém sem sucesso) que era ouvir aquele som misterioso no carro de seu pai, que logo foi vetado quando um flashback começou a rolar, mas isso não desanimou o menino, enquanto não chegava em casa, o ia folhando o encarte e observando as gravuras do CD.

Theo estava pirando! Ele olhava como se a oitava maravilha do mundo estivesse em sua frente. Foi quando ouviu o barulho do portão automático se abrindo até seu pai encostar o carro na garagem de casa fazendo a ventoinha trabalhar enquanto o motor cansado tirava uma folga. O garoto saiu do carro quase em um pulo, abriu todas as portas o mais rápido que pode, subiu os degraus rumo a seu quarto, pulando de dois em dois, finalmente Theo liga o som, apertando o botão para a gaveta para abrir. Com a gaveta aberta Theo ia colocando o CD com muito cuidado, finalmente apertou o botão do play fazendo o CD girar e o leitor trabalhar um pouco, esse processo foi quase um ritual, a ansiedade ali já dominava por completo garoto.

Então o silencio se quebra quando sai diretamente das caixas de som uma bateria que lhe traz uma vaga lembrança de uma metralhadora acompanhada de duas guitarras distorcidas, logo em seguida ouve um contra-baixo completamente veloz, em um ritmo alucinante, os instrumentos iam se tornando um som uniforme , Theo estava com o olhar fixo para caixa de som, talvez esperando que os músicos saíssem da caixa de som, e ele começa pirar, abre um sorriso enorme e diz sozinho:

– É isso, Porra! É isso! – Enquanto imitava a guitarra com os braços pra cima e pulando freneticamente na cama.

Quando o vocalista começa a cantar é inevitável sua empolgação, o garoto começa a se chacoalhar sua cabeça quase que involuntariamente, a musica de introdução: Invaders estava fazendo jus ao nome, porque estava invadindo o quarto do garoto e transformando sua vida de uma maneira que ele jamais imaginou antes. Aquele CD foi ouvido a tarde inteira. Theo se apaixonou por aquilo que ele nem sabia, mais que tem nome: se chama Heavy Metal.

Ele ficou viciado em Iron Maiden, passou a pesquisar horas e horas na internet sobre a banda, sempre que possível comprava revistas e pôsters para ler sobre a banda, logo seu quarto já estava tomado pelo rock and roll, e o azul de sua parede já havia desaparecido, provavelmente, se caísse Iron Maiden na prova Theo tiraria 10. Influenciado por sua curiosidade começou a ouvir outros sons, como Megadeth, Slayer, AC DC, Judas Priest, Dio, Ozzy, KISS, Alice in Chains e descobriu que no Brasil também existem bandas nacionais excelentes como Lobão, Barão Vermelho, Cazuza, Paralamas do Sucesso, Raimundos, Ultraje a Rigor, Sepultura, Motorocker, Angra entre outras bandas.

Os anos iam se passando e Theo agora tinha 16, já estava conhecendo melhor a vida, por sorte, influenciado pela musica, criou a cultura de ler, e começou a ir melhor nos estudos, também estava se informando mais sobre o mundo, já sabia decifrar seus os sentimentos e a sociedade em qual vivia, lia as noticias na internet, começou a fazer aula de inglês conforme sua mãe lhe orientou, treinava sua audição acompanhando as letras de suas bandas preferidas na internet e nos encartes de CD. Um dia andando no caminho de volta pra sua casa, Theo avisou uma barraca que estava vendendo algumas camisetas de Rock, o garoto se aproximou, olhou alguns modelos e por um impulso o garoto foi introduzido ao submundo do preto.

Theo comprou uma camiseta do Iron Maiden, com a capa do CD Killers estampada na frente. A partir deste dia o garoto começou a usar aquela camiseta não só para demonstrar o quanto era fã da banda, mais também para causar um impacto visual em sua família e na sociedade na qual convivia, pois muitas vezes vinha sendo repreendido por suas ações na escola, como pichação, já que os estudos já não o preocupavam, o que mais tinha prazer era ver o olhar de desgosto quando os demais olhavam a sua camiseta. Além do mais, o fato de sua mãe ser professora, exigia uma educação muito rígida que quase sufocava o garoto dentro de casa. Já com o seu pai, por não ter uma estrutura muito boa, e sua loja não ser muito grande, havia meses que não dava lucros para cobrir as despesas, assim faltava dinheiro em casa. O dinheiro era o principal motivo de brigas entre seus pais. Agora ele via o mundo pelo outro lado do prisma, com o passar do tempo já começava a expressar seus sentimentos de rebelde sem causa, e virando um freguês da barraca do Barba (vendedor de camisetas), agora ele não tinha apenas uma camiseta preta do Iron Maiden, e sim diversas camisetas de varias bandas, sua gaveta era completamente tomada por roupas pretas, e foi olhando para essa gaveta que Theo disse:

– Bem Vindo ao Preto.


Top 5 Músicas Para Se Ouvir Lendo Este Capitulo (Tocaram enquanto eu escrevia e me motivaram):

1. Led Zeppelin – Rock and Roll
2. Iron Maiden – Invaders
3. Anthrax – Poison in my Eyes
4. Megadeth – Holy Wars
5. AC DC – Back in Black

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