Nós nunca teríamos composto harmonias de guitarra, músicas instrumentais, com melodias tão profundas, ou orquestrais, se não fosse por Cliff. Nós nunca estaríamos aqui se não fosse por ele”

Esta semana marca o aniversário de 29 anos de um dos acidentes mais trágicos do Metal. A derrapagem do ônibus que resultou na morte do baixista Cliff Burton do Metallica aconteceu no dia 27 de Setembro de 1986 e mudou o rumo da que é hoje, possivelmente, a maior banda de Metal atual.

Na época do acidente, Burton tinha 24 anos. Já havia gravado com o Metallica “Kill ‘Em All”, “Ride The Lightining” e “Master Of Puppets” e sido responsável por uma das faixas instrumentais mais bonitas do Metal, Orion.

Depois da morte de Burton, o Metallica saiu a procura de um novo baixista. A entrada de Jason Newsted, baixista do Flotsam and Jetsam aconteceu três semanas após o funeral de Burton. Com a sua polêmica saída em 2001 o Metallica recrutou Robert Trujillo, que permanece na banda até hoje.

Veja a entrevista do Metallica no Canal Wikimetal

A importância de Cliff Burton no Metallica é inegável. Comentado frequentemente por James Hetfield, Burton lhe ensinou harmonias. “Nós nunca teríamos composto harmonias de guitarra, músicas instrumentais, com melodias tão profundas, ou orquestrais, se não fosse por Cliff. Nós nunca estaríamos aqui se não fosse por ele”, comentou em entrevista a um jornal sueco em 2006.

Em entrevista exclusiva ao Wikimetal, o baterista Lars Ulrich também falou sobre o que Burton trouxe de diferente para a banda:

“Claro que Cliff era uma grande parte do som do Metallica e grande parte do molde da experiência do Metallica. Não apenas para os fãs mas para as pessoas do Metallica, ele trouxe muito para a banda. Ele foi o primeiro cara, eu acho, no Metallica a falar de Lou Reed, Velvet Underground, Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Peter Gabriel, Misfits. Ele trouxe muita coisa diferente. Mas eu não consigo te falar se o Metallica soaria diferente hoje, eu não faço ideia. Cliff estava sempre interessado em experiências, em arriscar, ele não era de ficar sempre no seguro. Talvez a banda tivesse sido mais experimental e louca, não sei.”

Leia a entrevista de Lars Ulrich no Metallica

Quando você está nessa bolha de turnês e as coisas estão indo muito bem, você se sente invencível. Algo assim acontecendo parecia completamente improvável.”

Um dos relatos mais detalhados e emocionantes da morte de Cliff Burton veio no ano passado, no livro autobiográfico do guitarrista do Anthrax, Scott Ian. Em “I’m the Man: The Story of That Guy From Anthrax” Ian relembra o dia do acidente, que aconteceu durante uma turnê do Metallica com o Anthrax, e compartilha memórias dos dias seguintes do Metallica:

“Quando nós fomos fazer o check in no nosso hotel vimos nosso empresário falando com um cara. Eu acenei e disse ‘e aí Mark, tudo certo?’. E eu vi a expressão de choque completo no seu rosto. Ele estava pálido e parecia assustado. Algo não estava certo.

‘O promotor do show de hoje me falou que houve um acidente’, ele me disse. ‘O ônibus do Metallica capotou no caminho pra cá.’ Ele parou de falar por um momento, e voltou a falar como que forçando as palavras a sairem de sua boca. Como se tossisse as palavras. ‘O Cliff morreu no acidente. Todos os outros estão bem. O Lars sofreu alguns machucados leves e foi levado ao hospital.’

Meu cérebro começou a girar. Eu comecei a re-ouvir a frase na minha cabeça repetidamente, “Cliff morreu no acidente.”. Depois do que pareceu serem cinco minutos, que provavelmente deve ter sido dez segundos, eu balancei a cabeça e falei “Sério? Sério? E você acredita nisso?!?”. Eu estava em negação. “Não é possível. Eu tenho certeza que eles ficaram zuados demais para pegar o ônibus e inventaram essa história maluca. Vamos rir disso depois.”

Leia a entrevista com Scott Ian no Wikimetal

Qualquer coisa pareceria mais plausível do que imaginar que o ônibus capotou e que Cliff estava realmente morto. Eu nunca tinha ouvido falar de nada desse tipo, como um ônibus capotar e menos ainda causando a morte de um colega. Parecia surreal. Quando você está nessa bolha de turnês e as coisas estão indo muito bem, você se sente invencível. Algo assim acontecendo parecia completamente improvável. Eu perguntei ao promotor “Você tem certeza?”

“Sim, eu tenho certeza,” ele disse.

James começou a chorar e gritar “Cliff!!! Cliff!!” e então ele ficou destrutivo. Chutou os abajures e jogou as garrafas de bebida.”

Eu não sabia o que dizer, eu não queria acreditar. Quando caiu a ficha, foi como um soco. As pessoas começaram a falar sobre o que aconteceu. Fãs apareciam no hotel para nos dar seu apoio. De algum jeito, todos souberam onde nós estávamos ficando e formou-se uma multidão na rua do hotel. Mark recebeu uma ligação de James e Kirk dizendo que eles estavam a caminho. Lars tinha família na Dinamarca, então eu imaginei que ele fosse ficar com eles.

Mark nos perguntou se poderíamos ficar no hotel com James e Kirk quando chegassem. Claro que ficaríamos. Nosso amigo estava morto e nossos outros amigos estavam de luto. Era surreal. Algumas horas depois James e Kirk apareceram. James estava completamente sedado e bêbado ao mesmo tempo. Kirk disse que os médicos haviam dado um monte de sedativos ao James porque ele estava pirando, mas eles não o fizeram dormir, então ele continuou bebendo. Estávamos todos juntos em um quarto e James estava bebendo cerveja, vodka, whiskey – qualquer coisa que ele conseguisse alcançar.

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Kirk também estava bem bêbado, mas estável. Ele nos contou o que aconteceu. Ele não estava acordado quando o acidente aconteceu. Tudo que ele se lembrava era ser jogado de um lado para o outro como uma boneca de pano em uma secadora de roupas. E então parou. Ele saiu do ônibus e todos estavam gritando. Tudo ficou negro. Todos estavam recontando cada um e ninguém conseguia achar o Cliff. Quando eles viram suas pernas embaixo do ônibus tudo mundo perdeu a cabeça. Eu não consigo nem imaginar como foi isso, e eu nunca quero saber como é. Até hoje é difícil compreender.

James começou a chorar e gritar “Cliff!!! Cliff!!” e então ele ficou destrutivo. Chutou os abajures e jogou as garrafas de bebida. Frankie e Charlie se olharam e, sem trocar uma palavra, decidiram mutualmente levar o James para fora antes que o hotel o mandasse para a prisão. O hotel não se importava que o Cliff havia morrido, só queria prevenir que o quarto fosse destruído. Os dois levaram James para fora, pensando que pudessem acalmá-lo. Eu fiquei no quarto com Kirk. Nós conseguíamos ouvir o James na rua gritando o nome do Cliff várias vezes. Eu estava de coração partido. Fiquei com o Kirk mais um pouco, até que ele finalmente dormisse.

(…) Eu fiquei no apartamento de James na cidade por alguns dias, passando o tempo com o Metallica e nós fomos ao funeral. Conheci o Mike Bordin do Faith No More e o guitarrista Jim Martin, que eram grandes amigos do Cliff. Ficamos na casa do Kirk por horas durante dias bebendo cerveja e conversando. Os caras estavam tentando pensar o que fariam dali em diante.

Depois de alguns dias, estávamos na casa de Kirk fazendo piadas. Alguém disse “chamem o Lemmy”. Estavam discutindo nomes, tentando manter a conversa leve, não estávamos mais completamente deprimidos. Bebemos e contamos histórias sobre o Cliff. Foi surreal. Eu meio que esperava que ele fosse abrir a porta e falar “Haha, peguei vocês!”. Pareceria algo que o Cliff faria.”

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