Era o festival “Heavy Metal Bangers” e no palco o Viúva Negra passava o som com “Symptom Of The Universe”, do Black Sabbath”

Por Ricardo Batalha (*)

Era tão vidrado em Heavy Metal e sedento por novidades que quando ia jogar Basquetebol nos finais de semana à tarde, chegava ao cúmulo de levar meu walkman da marca Broksonic para sair logo do vestiário e sintonizar os programas de rádio dedicados ao Metal para gravá-los. Consigo lembrar a sensação e o momento exato quando escutei pela primeira vez a então nova do Tank, “The War Drags Ever On”, faixa do álbum “Honour & Blood” (1984). Quem vive na era da música por streaming não faz ideia das loucuras que os fãs faziam para conhecer novas bandas.

O “vício” era tanto que levava fitas cassete virgens e deixava gravando os programas para escutar depois as novidades. E fazia isso sempre, até mesmo quando estava dentro do estádio do Morumbi, vendo jogos do São Paulo. Um torcedor me cutucou certa vez, perguntando: “Quanto está o jogo do Palmeiras no Sul?”. Eu não sabia dizer, porque não estava sintonizado na Jovem Pan AM, ainda com o narrador José Silvério, mas ouvindo e gravando Heavy Metal. Apesar de ter tido o melhor professor neste assunto, Walcir Chalas, conheci várias bandas por causa dos programas de rádio. Meu irmão, Frederico, ficava abismado com esse meu vício pela música. “Até aqui no Morumbi?” Sim, era. “Metal para sempre”, como diz Jack Santiago, ex-vocalista do Harppia. Afora isso, nunca gostei de ficar ouvindo Roberto Carlos ou Samba nos intervalos dos jogos do estádio que tinha abrigado shows do Queen e Kiss – felizmente, agora é Rock por causa do Rogério Ceni e da releitura do hino feita por Andreas Kisser (Sepultura)!

Viramos os “perigosos”, os “malditos”, os “inimigos”, mas esta exposição fez com que muitos também passassem a ter o Metal em seus corações”

No clube que estava jogando em meados dos anos 80, além das amizades criadas com alguns outros jogadores e sócios que curtiam e consumiam Heavy Metal, tive a sorte de conferir um festival que a gravadora independente Baratos Afins organizou no Paineiras do Morumby em 23 de março de 1985. Estava com quatorze anos de idade e, naquele ano, os fãs da música pesada – ainda chamada de “Rock Pauleira” – estavam eufóricos, pois a primeira edição do festival “Rock In Rio” ocorrera meses antes, em janeiro. Houve grande destaque para as bandas de Heavy Metal e Hard Rock, as chamadas “inimigas da New Wave” ou as preferidas dos “metaleiros”, como insistia a Rede Globo. Viramos os “perigosos”, os “malditos”, os “inimigos”, mas esta exposição fez com que muitos também passassem a ter o Metal em seus corações – “Metal Heart” do Accept saiu em 1985. O primeiro impulso ocorreu antes, na turnê do Kiss pelo Brasil, mas o “Rock In Rio” foi fundamental para a expansão da música pesada por aqui.

Os grupos brasileiros buscavam seu espaço e eu ia atrás. Nunca fui de curtir só em casa. Ia porque gostava do som, da música e queria conhecer tudo. Agradeço sempre ao Luiz Carlos Calanca, da Baratos Afins, uma das primeiras da Galeria do Rock, por ter apostado no Heavy Metal brasileiro. Comprei com orgulho a primeira edição da coletânea “SP Metal”, lançada em 1984. Ganhei até um ‘button’!

Por outro lado, nem tinha como chamar de concorrência aquilo que ocorria no cenário mais glamouroso do Rock Brasil. Havia as bandas pioneiras do Rock pesado e também as de Heavy Metal, Punk Rock ou as chamadas “underground”, como Fellini, Cabine C, Voluntários da Pátria, Akira S e Smack. Bem amparados pela mídia, as do Rock Brasil tinham seus trabalhos lançados por grandes gravadoras e, por consequência, gozavam de enorme acolhida popular e da mídia. Só para se ter uma ideia, naquele mesmo dia, em março de 1985, o Ginásio do Ibirapuera foi palco do “California Rock Concert”. O evento, que estava com todos os ingressos vendidos antecipadamente, reuniu Ultraje A Rigor, Lobão e os Ronaldos, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Caetano Veloso. Mas eu estava em outro lugar. E sem nenhuma pompa, como era costume em shows de Metal.

Comecei a ouvir bem de longe o som característico de uma banda fazendo a passagem de som e preparando os equipamentos para um show…”

Lembro que quando cheguei ao clube Paineiras na manhã daquele sábado, não percebi nada de anormal e desci até o ginásio. Enfrentaríamos a sempre forte equipe do EC São Bernardo. Demos o máximo, mas saímos de quadra derrotados e fomos para o vestiário do ginásio onde, literalmente, tomamos um banho de água fria. Então, quando estava colocando o agasalho do clube, comecei a ouvir bem de longe o som característico de uma banda fazendo a passagem de som e preparando os equipamentos para um show. Bumbos batendo seguidamente, ecos de guitarra distorcida, gente falando aquelas palavras de sempre – “teste, um, dois, três, teste”. Dispensei o vale-lanche que ganhávamos, na vitória ou na derrota, e subi correndo para ver o que estava acontecendo no salão do clube. A música sempre falou mais alto.

Ao chegar, ainda com o uniforme cor de vinho do time, consegui adentrar ao salão nobre sem grandes problemas com os seguranças. Nem mesmo o mais truculento e despreparado, algo corriqueiro naquela época, me perguntaria se eu era mesmo sócio do clube vestindo aquele agasalho. Momentos depois, fiquei pasmo ao ver toda aquela movimentação. “Como assim, um Lira Paulistana no clube onde eu jogo?”, pensei comigo ao lembrar o local que abrigou diversos shows da época – o primeiro do Viper, em mais um dos projetos idealizados pelo Celso Barbieri, ocorreu lá pouco menos de um mês depois, a 8 de abril.

Mesmo com vergonha por não estar usando minha indumentária Heavy, com jeans, patches e buttons de bandas, eu tinha mais um compromisso com o Heavy Metal”

Logo saí pedindo informações e descobri que o programa teria bandas como Korzus, Vírus, Performances, Viúva Negra, Improviso e Veneno Negro. Era o festival “Heavy Metal Bangers” e no palco o Viúva Negra passava o som com “Symptom Of The Universe”, do Black Sabbath. Para quem era frequentador da Praça do Rock, na concha acústica do Parque da Aclimação, e já tinha visto várias bandas do “SP Metal” em ação, sentir aquele clima de show no salão nobre do clube, notar que aquele espaço tinha virado por instantes um Sesc Pompéia, parecia quase um milagre. Fiquei estático, olhando para o palco como se o mundo tivesse parado. Me lembrei dos shows que tinha visto do Centúrias, A Chave do Sol, Salário Mínimo, Abutre, Avenger, Ano Luz, Mammoth, Harppia, Anthro, Lixo de Luxo, Gozometal e tantos outros. Posso ter perdido o jogo na quadra naquele sábado, mas ganhei muito mais no salão.

Rapidamente, saí de lá e fui avisar o meu pai que não poderia mais sair do clube no horário combinado, pedindo que fossem me buscar somente depois das nove da noite. Eu não estava com a minha jaqueta surrada de couro, mas tudo bem. Mesmo com vergonha por não estar usando minha indumentária Heavy, com jeans, patches e buttons de bandas que curtia, eu tinha mais um compromisso com o Heavy Metal. Agora, trinta anos depois, ainda estou focado, vidrado e vivendo o “SP Metal”.

(*) Ricardo Batalha é redator-chefe da revista Roadie Crew (roadiecrew.com) e diretor da ASE Assessoria e Consultoria (asepress.com.br).

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(*) Ricardo Batalha é redator-chefe da revista Roadie Crew e diretor da ASE Assessoria e Consultoria.

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